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Recuperação Judicial Saraiva: rede de livrarias fecha penúltimo trimestre de 2019 no azul

Recuperação Judicial Saraiva: prateleira de uma livraria

 A rede de livrarias Saraiva divulgou, em novembro passado, o seu balanço financeiro do terceiro trimestre de 2019. Após aprovar e colocar em prática o seu plano de Recuperação Judicial, a varejista trouxe as dívidas e juros referentes ao processo a valor presente e adicionou R$ 277,7 milhões ao seu resultado financeiro. Com essa medida e outras ações operacionais e administrativas, conseguiu reduzir o prejuízo de R$ 66 milhões apresentado em igual período do ano passado, para R$ 59 milhões, e obter lucro contábil de R$ 11,5 milhões. 

As receitas brutas totalizaram no terceiro trimestre R$ 159,6 milhões, queda de 51,5% quando comparadas às apuradas no mesmo intervalo de 2018. O  e-commerce foi o que perdeu mais receita: 57,7%. Segundo o relatório divulgado pela Saraiva, o impacto negativo nas vendas desse canal deveu-se a instabilidades no sistema. Já a receita bruta das lojas físicas, no mesmo período, foi de R$ 110 milhões, 48,1% menor que a do mesmo período do ano anterior. Em termos de lojas comparáveis, a receita bruta apresenta declínio de 36,3% no mesmo período.

 Os Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA) ficaram negativos em R$ 32,6 milhões, variação de -34,1% na comparação com igual período de 2018. Ainda segundo o relatório, a rede de livrarias fechou 33 lojas e abandonou os segmentos de informática e telefonia, pois, apresentavam pouca rentabilidade.  

Crise nas redes de livrarias

Em 2018, as duas das maiores redes de livrarias do Brasil, Saraiva e Cultura, responsáveis por 40% do faturamento do varejo de livros no país, chegaram ao ápice de suas crises financeiras, com dívidas que, somadas, chegavam a R$ 960 milhões e que culminaram nos processos de recuperação judicial das empresas. Naquele mesmo ano, a venda de livros no Brasil cresceu 1,3% em volume e 4,6% em faturamento, na comparação com 2017, com 44,4 milhões de exemplares vendidos no ano e movimentação de R$ 1,8 bilhão, segundo dados da Nielsen Bookscan e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). 

Uma das razões para a crise das duas redes, com modelos de negócios baseados em megastores, pode ser atribuído à mudança no comércio de livros, que passou a ser dominado pelo comércio eletrônico. Para se ter uma ideia, o número de cidades brasileiras com livrarias caiu de 42,7%, em 2001, para 17,7%, em 2018, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Na opinião da Dra. Fabiana Solano, sócia da área de Reestruturação de Dívidas e Insolvência da Felsberg Advogados e membra associada da TMA Brasil, a crise enfrentada pelas livrarias neste período é reflexo de muitas mudanças bruscas nesse mercado num curto espaço de tempo. “Houve uma percepção do mercado como um todo que se medidas drásticas não fossem tomadas realmente haveria uma crise sistêmica. Então, como não havia outra alternativa, todos colaboraram com a aprovação do plano (de recuperação judicial).” 

O plano de Recuperação Judicial Saraiva

O plano de Recuperação Judicial Saraiva foi aprovado em agosto e homologado em setembro do ano passado, com aprovação de mais de 80% dos credores, de acordo com o relatório divulgado pela Saraiva. Segundo a companhia, o plano estabelece medidas de eficiência para a equalização e liquidação do passivo de suas empresas, tais como a reestruturação do passivo e a preservação de investimentos considerados essenciais à continuidade operacional, e alterações na estrutura de Governança Corporativa, reestruturação das lideranças, especificamente, o cargo de CEO e do Conselho de Administração, que ficarão submetidos às regras pré-estabelecidas no plano. “Agora, com uma estrutura de endividamento bem mais enxuta, acho que o que a Saraiva tem pela frente de desafios é realmente implementar as mudanças necessárias do negócio, realizar um turnaround operacional, trabalhar mais a experiência em loja, focar no digital”, pontua a advogada. 

Entre as ações implementadas que surtiram efeito no balanço da companhia, a Saraiva destacou as seguintes em seu relatório de resultados: retomada do abastecimento de produtos; readequação do mix de produtos; reestruturação do parque de lojas; priorização da rentabilidade por meio de maiores margens no e-commerce; migração da plataforma de e-commerce; redução de despesas operacionais; liberação de recebíveis; imagem consolidada e liderança de mercado; e perfil omnichannel

“Do ponto de vista jurídico, eu acho que o ponto-chave do plano de recuperação judicial foi o acordo que eles celebraram para preservar a relação com as editoras. Por que o principal para uma livraria é manter os estoques em nível adequado. E acho que isso foi bem conduzido”, comentou a Dra. Fabiana Solano.

Repercussão no mercado de recuperação de empresa

Para a advogada e membro da TMA Brasil, a recuperação judicial deve continuar em alta em 2020 como estratégia de recuperação de empresa e os resultados positivos da Saraiva devem motivar outras empresas a seguirem por este caminho, ainda que boa parte dos resultados dos processos ainda não seja satisfatória. “Como as empresas estão com um endividamento muito alto e o crédito ainda está muito curto, a tendência é ainda de aquecimento, de ter novos processos de RJ. E uma notícia dessas mostra que, se medidas de choque forem tomadas e se houver um alinhamento entre os diferentes credores e os devedores, o processo pode dar certo.”  

Segundo a advogada, um dos fatores que desencoraja as empresas a buscarem essa estratégia é o baixo percentual de sucesso dos processos de Recuperação Judicial, como mostra um estudo realizado pelo Observatório de Insolvência da PUC-SP, a partir de pedidos feitos entre 2010 e 2018, que mostrou que quase 60% das companhias que optaram pelo processo judicial não conseguiram sair depois dos dois anos de monitoramento fixado por lei. O levantamento avaliou 906 processos no Estado de São Paulo, dos quais apenas 18,2% tiveram êxito na recuperação judicial e 24,8% foram à falência por não cumprir o plano. “Esse estudo mostra que as medidas adotadas nos processos de RJ não são suficientes. Nem todos os créditos estão incluídos, em geral, é preciso fazer várias negociações ao mesmo tempo e nem todas são relacionada à recuperação judicial. Tudo isso, somado à falta de previsibilidade nas decisões judiciais, desencoraja e amedronta o empresário a entrar com um pedido, que geralmente acontece quando a empresa está no último estágio de negociação”, conclui.

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