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Empresas chamam credores e fazem renegociação em série de debêntures

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Acordos dão a companhias mais prazo e alívio para o caixa, comprometido pela pandemia

Os efeitos da pandemia de Covid-19 na economia já levaram diversas empresas a renegociar títulos de dívida, alegando dificuldade de honrar os pagamentos nos termos acordados na emissão após redução no fluxo de caixa.
Agentes fiduciários (representantes dos credores) apontam que, desde março, mais de 100 companhias adiaram prazos no pagamento de debêntures e CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e mudaram a política de remuneração, alongando o prazo da dívida ou adiando pagamentos parciais programados.
Entre as empresas mais conhecidas estão Rede Bandeirantes, Intercement (divisão de cimento do grupo Camargo Corrêa), IMC (International Meal Company, das redes KFC, Viena e Pizza Hut), além de Inbrands, dona de marcas como Ellus e Salinas, e Restoque, de Le Lis Blanc e Dudalina. 
Outras, como CVC, convocaram debenturistas para impedir que declarem o vencimento antecipado da dívida. A empresa fez uma assembleia na sexta-feira, que foi suspensa até que a companhia divulgue os resultados do primeiro trimestre. A nova assembleia deve ocorrer em 7 de agosto.
Debêntures representam a maior fatia de títulos corporativos no Brasil, com R$ 675 bilhões emitidos, seguidas das notas promissórias (R$ 44,9 bilhões). Já o estoque de CRIs soma R$ 77,2 bilhões, segundo dados da Anbima (entidade do mercado de capitais).
“Era esperado. Toda vez que há um cenário de crise, há renegociação de dívidas. Quanto mais grave a crise, mais forte a renegociação. Você tem um colapso de geração de caixa e há um risco de não honrar as dívidas”, afirma Ricardo Carvalho, diretor-executivo de Corporates da Fitch Ratings.
“Estamos tendo um forte movimento de renegociação. Uma execução agora não é benéfica para ninguém. É mais uma questão de tentar se precaver pelo pós-pandemia”, diz Juliano Cornacchia, sócio da Vórtx, agente fiduciário.
As renegociações mais comuns até o momento são o adiamento de pagamentos de amortização ou juros por três meses e dos vencimentos dos papéis previstos para 2020 e 2021 (quando a companhia precisa devolver o valor do título ao credor). Há também maior tolerância ao endividamento da empresa e assim aumento na remuneração.
“Percebemos um fluxo maior de renegociação ao mesmo tempo, diferente das crises anteriores. Hoje o impacto é sobre todos os setores, e é muito mais rápido”, diz Viviane Rodrigues, diretora de Agente Fiduciário da Planner.
Ela aponta que as renegociações são por queda brusca no fluxo de receita ou por preservação de caixa.
“O investidor e a companhia estão conscientes do momento e as negociações têm sido transparentes.”
A maior parte das propostas são de postergação dos pagamentos, com o total de adiamentos superando 2008 e 2015, segundo Rodrigues.
Já as reestruturações são raras. “É difícil propor reestruturação agora e depois ter que negociar de novo. Empresas estão aguardando definição dos números e cenários.”
No caso da Band, debenturistas já aprovaram que os pagamentos inicialmente previstos para 11 de agosto sejam feitos em 11 de novembro, com correção pela taxa DI (taxa de juro que acompanha a Selic).
A emissora ainda negocia a suspensão no pagamento das parcelas de amortização até 2022 e uma nova data de vencimento para as debêntures, em novembro de 2030, alongando o prazo inicial em oito anos.
Procurada, a emissora disse que está se “adequando à nova realidade que hoje muitas empresas enfrentam no Brasil e no mundo” em função do reflexo econômico da pandemia.
A dona de restaurantes IMC adiou as remunerações previstas para setembro deste ano e março e setembro de 2021 para o vencimento das debêntures, em 2025 e 2026.
Como compensação, a empresa aumentou consideravelmente o rendimento anual dos papéis: de 1,15% para 4,85% na primeira série emitida e de 1,6% para 5,3% na segunda, ambos acrescidos da taxa DI acumulada no período.
Como tem grande parte das unidades em shoppings e aeroportos, a empresa teve um prejuízo líquido de R$ 46 milhões no primeiro trimestre deste ano, um salto em relação à perda do mesmo período de 2019, de R$ 8 milhões. Em março, demitiu 30% dos funcionários e, aos demais, deu férias e suspendeu contratos. A IMC preferiu não comentar a renegociação.
Em recuperação extrajudicial, a Restoque suspendeu os pagamentos de juros aos debenturistas até junho de 2021 e das parcelas das debêntures até junho de 2023. Para pagar os credores, em sua maioria bancos e fundos de investimento, a companhia planeja uma nova emissão de debêntures, que pode chegar a R$ 605 milhões, e de ações ordinárias, de, pelo menos, R$ 150 milhões. A dívida, composta quase totalmente pelas debêntures, é de cerca de R$ 1,5 bilhão.
Mauricio Xavier, gestor de crédito privado da Rio Bravo, diz que, para a empresa, é mais simples emitir um novo papel, com juro mais baixo, e pagar antecipadamente as debêntures que estão na mão dos credores.Ele aponta que a maior parte das empresas que renegocia já estava com problemas financeiros no ano passado e que empresas geralmente buscam outros credores antes de chegar nas debêntures.
A maior parte das debêntures está na mão de bancos (intermediários) e fundos de investimento, que repassam os papéis ao pequeno investidor via fundos de renda fixa ou multimercado. É o caso da fabricante de armas Taurus, que conseguiu postergar os pagamentos de junho, julho e agosto com um acordo com os bancos credores.
“O adiamento beneficia o caixa da companhia a curto prazo, deixando-o bem mais confortável nesse momento delicado com a pandemia da Covid-19”, afirma Salesio Nuhs, presidente da Taurus.
Ele diz ainda que o adiamento evita que a empresa venda ativos a preços baixos.
O diálogo com bancos torna o processo de renegociação mais ágil. Eles costumam ter mais de 50% dos votos em assembleias e os pleitos das empresas podem ser decididos por maioria simples. Além disso, a realização de assembleias virtuais aumentou o quórum de participações, reduzindo as reuniões infrutíferas por baixa adesão.
Na renegociação da Intercement, o Bradesco (também acionista da empresa) e o Banco do Brasil, principais debenturistas, aprovaram uma proposta criticada por minoritários. A empresa adiou os pagamentos por três meses, sem remuneração adicional. A companhia também emitiu novas debêntures, no valor de R$ 4,7 bilhões, para o pagamento das dívidas. A Intercement preferiu não comentar.
“As emissões antigas, que captaram com Selic em alta, queriam se financiar em taxas menores e aí veio a quarentena e empresas querem renegociar dívidas para se adequar ao fluxo de caixa reduzido”, diz Cornacchia, da Vórtx.
Já a Inbrands não conseguiu consentimento de seus debenturistas para adiar os pagamentos de abril, maio e junho para julho.
Foram dez assembleias desde 6 de abril sem um acordo para flexibilizar as garantias da emissão e impedir que os credores decretem o vencimento antecipado da dívida.
A empresa saiu de um prejuízo líquido de R$ 27 milhões em 2018 para lucro de R$ 24 milhões em 2019, mas com a queda de vendas na crise do coronavírus, o mercado discute a possibilidade de um plano de recuperação judicial.
Procurada, a companhia afirmou que renegocia os papéis devido a alterações de fluxo de caixa. A próxima assembleia de debenturistas está marcada para esta segunda-feira (6).
Uma das renegociações de CRI foi da Cipasa Urbanismo, que vai deixar de pagar a amortização nos meses de maio, junho e julho, remunerando credores apenas com juros neste período. As parcelas serão pagas em agosto com atualização monetária.
A reportagem não conseguiu contato com a empresa.
“Renegociação não pode ser algo para apenas postergar o problema. O fôlego momentâneo é importante para a empresa, mas é preciso ser feito com cronograma adequado, de acordo com o fluxo de caixa da empresa, para não gerar mais problemas no futuro”, diz Mucio Mattos, sócio da Vectis Capital Solutions.
Risco de calote deve ser considerado ao investir
Debêntures e CRIs são tidos por investidores como papéis seguros com rendimento maior que títulos públicos, o que levou muitas pessoas físicas a embarcarem neste mercado com a queda da Selic e a criação de debêntures isentas de imposto de renda.
O risco de calote e renegociação da remuneração, porém, deve ser levado em conta na hora de investir.
Esses títulos de dívida não contam com cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e raramente têm garantias na emissão, como imóveis e maquinário.
Em casos de recuperação judicial, títulos de dívida não estão acima de outros débitos e podem ser os últimos pagamentos.
“Sem dúvida, diversas empresas vão ter que ir para reestruturação tanto extra quanto judicial. E, na ordem de renegociação geralmente é: fornecedores, banco, e, depois, debenturistas”,diz Mucio Mattos, sócio da Vectis Capital Solutions.
Outro risco desses investimentos é a falta de liquidez. Como os papéis são concentrados em bancos, o mercado secundário é muito pequeno.
“São indicados para o investidor mais agressivo porque é mais difícil de repassar esse papel. É preciso casar com o investimento e confiar que emissor vai cumprir com acordo”, diz José Raymundo de Faria Júnior, planejador financeiro pela Planejar.
O especialista recomenda observar a saúde financeira da empresa e a nota que as agências de classificação de risco dão para a emissão.
“É melhor analisar a qualidade do emissor e não a taxa de retorno”, afirma Faria Júnior.
INVESTIR EM DEBÊNTURES
Como comprar? 
Em corretoras, da mesma maneira que ações

Qual o valor mínimo de investimento? 
Em média, de R$ 10 mil, mas há papéis de R$ 100 mil

Qual o rendimento? 
Segue ou a taxa CDI (semelhante à Selic), mais um juros predefinido na emissão, ou o IPCA (inflação) mais juros. Quanto maior o risco da empresa, maior o juro pago

Há incidência de Imposto de Renda? 
A maioria está sujeita à tabela regressiva, mas há isenção nos papéis que captam recursos para investimentos em infraestrutura
 

06/07/2020

Autor(a)
Júlia Moura

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